28 fevereiro 2017

E tu, que informação inútil guardas no teu cérebro?

O Cat Stevens agora chama-se Yusuf Islam, o Checkpoint Charlie dividia a Friedrichstrass, a Joana de Verona afinal não abandona a novela, a última vez que o Sporting foi campeão ganhou no último jogo ao Beira-Mar, os irmãos Dassler zangaram-se e um ficou com a Adidas e outro criou a Puma, a princesa Diana morreu no túnel da Pont d'Alma, o Pelé chama-se Edson Arantes do Nascimento, o navegador do Hannu Mikkola chamava-se Arne Hertz, a capital do Togo é Lomé, os Eurythmics eram a Annie Lennox e o Dave Stewart, a música do Jet Set Willy era o If I were a rich man, o Carlos Saleiro foi o primeiro bebé-proveta português.

27 fevereiro 2017

Pipoco pergunta

Se não existisse esta bizarria da melhor actriz e do melhor actor (onde é que está a Luna quando precisamos dela?) o prémio de melhor intérprete ia para a Emma Stone ou para o Casey Affleck?

Quiçá...

E se também se tiverem enganado a anunciar o Bob Dylan, só que na altura ninguém se quis aborrecer?

26 fevereiro 2017

Isto anda tudo ligado

Dos filmes que ganharam um Razzie, calhou-me ver o Batman vs Super-Homem. Fui lá pelo Batman.  Já não há jornais da tarde.

De cada vez que se comemora Zeca Afonso fico com pena de não ter ido ao concerto do Coliseu. A seguir dá-me vontade de ouvir Pink Floyd.

Hoje confundi Cage the Elephant com Vampire Weekend. Tocou Haydn no resto da viagem.

Rainieri foi despedido do Leicester. Nuno Markl faz parte do júri do Festival da Canção.

24 fevereiro 2017

Ontem ao almoço

Ela chegou a horas ao restaurante, que era perfeito o que ali nos trazia, vestia o vestido perfeito, razoavelmente decotado, de um desses criadores novos, disse as palavras perfeitas para a ocasião, incluíndo "Agile" e "Digital", deu-me as deixas perfeitas para eu colocar as perguntas inteligentes perfeitas, teve o timing perfeito na introdução das temáticas "qualidade da neve nos Alpes prevista para a próxima semana" e "último livro do Valter Hugo Mãe".

Eu fiquei o tempo todo a reparar na quase imperceptível marca de batom vermelho numa zona impossível de os lábios dela alcançarem.

23 fevereiro 2017

Lago Tanganica, enfim

Tempos houve em que as margens do lago Tanganica se agitavam com os pequenos nadas, esse era o tempo em que Sansão, o pássaro-alfa, com o seu vôo magnífico, apaziguava as tribos que se atropelavam nas margens férteis do lago, Sansão, o pássaro-alfa, aconselhava aqui, desbloqueava ali, admoestava mais além, as tribos aquietavam-se com a palavra sábia de Sansão, o pássaro-alfa, as pequenas picardias acabavam em bem, e Sansão, o pássaro-alfa, regressava em paz quando o sol se deitava na margem do Lago Tanganica, feliz por fazer o bem, tranquilo por verificar as pequenas traquinices se resolviam com saberes antigos.

Vieram então os tempos intranquilos, em que as várias tribos faziam e desfaziam alianças, um tempo sem lei, um tempo de monções agrestes. Sansão, o pássaro-alfa, planando superiormente sobre o Lago, taciturno e apreensivo, observava as tribos, umas dizimando-se a si próprias em lutas fraticidas, outras tentando equilibrar-se nas margens pantanosas do lado Nordeste do Lago, foi o tempo em que Sansão, o pássaro-alfa, migrou para Sul, levando a concórdia a lagos mais urgentes que o Lago Tanganica.

Sansão, o pássaro-alfa, regressa agora ao Lago, afinal trata-se do seu Lago, ainda vem longe e já nota os estandartes em farrapos, o pântano apaziguado com o sacrifício de tribos imprudentes, das tribos antigas já poucos restam, umas fazem os seus ninhos com maus barros mas não olvidando coloridas e esvoaçantes fitas de cetim, outras contam-nos histórias de pasmar das suas crias.

Sansão, o pássaro-alfa, poderoso e altivo, voa de novo sobre o Lago Tanganica. Oremos, pois.

(*)

22 fevereiro 2017

Post em tempo real

O primeiro canal da televisão do meu hotel tem a gravação de lenha a arder. Só isto, lenha a arder. É maravilhoso aumentar o volume só para simular que coloquei mais lenha. 

Estou fascinado. 



19 fevereiro 2017

Ainda dos filmes de Berlim

Há um pormenor do tal filme, o "Adiós Entusiasmo", que me anda a inquietar, o filme era sobre uma família num apartamento, uma mãe isolada dos três filhos, que comunicavam através de uma porta fechada, uma mãe a quem os filhos passavam comida através de um postigo, nunca o espectador via a mãe nem sabia a razão do isolamento, eram quase cruéis as cenas em que a mãe pedia ao filho mais novo que cantasse para ela junto à porta que os separava, era atroz quando se comemorou o aniversário da mãe com os convidados num quarto e a mãe isolada noutro. Eu já li um livro com esta ideia-base, a minha inquietação é não me lembrar que livro era.

Then we take Berlin

Por situações variadas que aconteceram em circunstâncias que não controlei, a que acresce ter dado ouvidos a opiniões que, sei-o agora, devia ter ignorado, Berlim nunca se tinha posicionado como uma cidade apetecível para me fazer considerar um par de dias da minha vida a perder-me por lá. Fiz mal, é a segunda vez que me acontece na vida uma tão deficiente apreciação da realidade, em Berlim apeteceu-me abraçar desconhecidos, uns explicaram-me o melhor processo de comprar bilhetes para a Berlinale, outros perguntavam-se se eu precisava de ajuda assim que eu tirava um mapa do bolso, outros não desistiram de me explicar o que achavam que eu lhes estava a perguntar, eles sem falar uma palavra que não fosse em alemão, eu sem saber uma palavra em alemão que não fosse "Danke" acompanhada com o meu melhor sorriso.

De Berlim não recordarei correr com seis graus negativos, eu a entrar de calções pela Porta de Bradenburgo e a fazer a Unter der Linder até à Friedrichstrasse, não recordarei o filme argentino que era o único possível, a emoção de poder fazer perguntas a um realizador desconhecido que no fim do filme estava ali ao dispor, eu a perceber o que realmente quer dizer "a reacção do público", não recordarei a emoção de estar ali ao lado do Muro a imaginar o que significa uma rua cortada ao meio, metade pertence a um mundo, a outra metade a outro mundo, não recordarei o som do pisar das caras de metal no Museu Judaico.

De Berlim, recordarei as pessoas.

10 fevereiro 2017

Pipoco precisa de uma ideia...

...que o ponha dentro do Festival de Berlim sem um daqueles cartões mágicos que as pessoas que passam a barreira de segurança têm ao pescoço.

05 fevereiro 2017

Taciturno

Nestas semanas em que se me escapam os minutos, faço as minhas contas e pergunto-me de ando a correr atrás, se realmente quero esta vida de jogador de poker, penso que não seria má ideia transformar-me num tipo taciturno, desses que vivem em comunhão com os ciclos da natureza, que não comem tomate em Fevereiro nem castanhas em Março, podia ser uma espécie de pai de Pablo Escobar, tal qual ele aparece em Narcos, o homem a plantar estacas, talvez pudesse ser como o tipo do Gran Torino, um homem e o seu carro, talvez pudesse ser como Jorge de Burgos, um homem e os seus livros.

Depois tenho um fim de semana em que sou eu e os meus livros e as minhas caminhadas nocturnas, o meu cognac a acompanhar Missas Solemnis e passa-me num instante a vontade de ser um tipo taciturno.

04 fevereiro 2017

Sonhei que...

...a equipa do Sporting estava aborrecida por ter que ir jogar hoje com o Porto, uma maçada, uma perda de tempo, ter que jogar com o Porto quando podiam estar a aviar uns finos na Cufra, decidiram então sortear entre todos e calhou ao Bas Dost ir jogar contra os tipos, ele lá foi, contrariado, o resto da rapaziada lá ficou a dar conta dos finos, chegou-se ao fim do jogo e lá apareceu o Bas Dost, mal encarado, a rapaziada perguntou que tal tinha corrido, o Bas Dost informou que tinha ficado dois a dois, a rapaziada cumprimentou-o, que não ficasse assim tão em baixo, dois a dois não era mau resultado, afinal tinha sido ele contra onze, percebia-se, e o Bas Dost lá se descoseu, a má disposição não era pelo resultado, o problema é que tinha sido expulso aos dezassete minutos da primeira parte...

America First? Pipoco Mais Salgado Second

Caro Donald, aqui Pipoco Mais Salgado. É incrível como somos quase iguais. Sim, eu também escrevo barbaridades. Todos os dias. Quase todos os dias. E também consigo estar sempre a dizer a mesma coisa, só que com palavras diferentes. Também viajo muito mas não conheço nada da maioria dos sítios onde vou. Tal como o meu caro, vou lá dizer meia dúzia de banalidades e volto para casa, sem conhecer mais do que o caminho do hotel para o aeroporto. Também tenho uma mulher com nome estrangeiro, mais nova e com muito melhor ar do que eu. Também tenho um muro a separar-me do meu vizinho. É um muro de sebe, mas é um muro. Do território do meu vizinho também me chegam uma espécie de drogas. Vinho do Redondo e queijo de Nisa. Às vezes também tenho problemas em perceber o que se está a passar. Não é sempre, é só se estiver a ler  Ulysses (é um livro, uma coisa em papel com coisas escritas lá dentro). Também não sei nada sobre mulheres. Rigorosamente nada.  Mas acho que sei, tal qual o meu caro. Também gosto de dizer que o meu país é o melhor do mundo. E é. Às vezes. Em algumas coisas. Também me aborreço com estrangeiros. Chineses a tirar "selfies" em frente aos quadros que eu quero ver e americanos com bonés de basebol a falar muito alto nos restaurantes. Mas passa-me depressa.

(tenho melhor cabelo e um ar menos parolo, nisso somos diferentes, mas o que é isso, comparado com tanta coisa em que somos praticamente iguais?)

29 janeiro 2017

Ainda Janeiro não acabou...

...e já despachei dois hotéis da lista de quatro que interessava conhecer, já vi três filmes que há muito me apetecia ver, já comprei dois livros que há muito estavam esgotados, já marquei viagem para a única grande capital que ainda me faltava.

Isto vai.

Que vês da tua janela, Pipoco?


27 janeiro 2017

Morrer de amor

O problema, Ruben Patrick, é que deve ser um aborrecimento dos antigos essa coisa de se morrer de amor, a pessoa ali a ter episódios de taquicardia porque a amada ou não está sintonizada na situação, ou não está a par de que está alguém nesse preciso momento a morrer de amor por ela, ou, simplesmente, dá-se o caso de estar ela própria a morrer de amor por outro alguém, a pessoa a definhar, a enganar-se no caminho para casa, a não dizer coisa com coisa, a perguntar-se como conseguiu existir antes de a conhecer, a embevecer-se a cada palavra dela, a não dormir em condições, a parecer-lhe que sem ela nada mais importa, nem o Sporting campeão, nem almoçar no Porto de Santa Maria, nem uma garrafa de Barca Velha da última colheita, enfim, Ruben Patrick, tudo isto quando bastava chegar à beira dela, um bom fato vestido, um sorriso de quem tudo pode, a confiança de quem lhe pode dar mundo, olhando-a nos olhos, convidando-a para um jantar lá em casa, ela a chegar, ele recebendo-a de avental branco, atarefando-se nos últimos pormenores da sobremesa, Roth e Herberto espalhados pela cozinha, Bach a sair de uma Bang&Olufsen invisível, ele a servir-lhe o vinho certo em cada ocasião, ela finalmente a intuir que está ali quem lhe pode garantir o refinamento da espécie, ela a rir com as histórias de viagens que ele lhe conta, ele a ouvi-la com atenção, com atenção indisputada, enfim, Ruben Patrick, tudo tão mais fácil e eficaz, sem essa trapalhada de se morrer de amor.

26 janeiro 2017

Já morri

Num fundão do Zêzere, eu com seis anos, eu sabendo o meu tio a fumar a menos de um metro, eu a afundar-me, eu a não conseguir agarrar-me ao meu tio, o meu tio puxando-me do que me parecia o fundo de um abismo, o meu tio dizendo "então, engoliste um pirolito?" enquanto continuava a fumar e a falar com um amigo, sem sequer olhar para mim a a água a dar-lhe pela cintura, eu a ir para a margem devagar.

Nos Alpes suíços, o glaciar que estava mais abaixo do que aquilo que me mostrava a carta topográfica, eu sem equipamento para passar o glaciar e sem tempo para voltar para trás, eu a olhar para o declive e a pensar que se me escorregasse um pé, se por ali existisse gelo fino, se, se se.

Ela a oferecer-me boleia para casa, eu a aceitar, eu a perceber que ela não era a melhor condutora do mundo assim que ela engatou a primeira, ela a não parar num stop, o camião a desviar-se no último segundo, ela a passar o cruzamento imperturbável, ela a dizer "se calhar devia ter parado", eu a concordar com ela.

Na garganta do Cares, eu a ser inconsciente, eu a não querer contar mais nada sobre isto que se passou na garganta do Cares.

Eu com demasiado gin tónico, eu de pé no banco do pendura de um descapotável, chuva e a Marginal sem separador central.

O comboio a chegar a Budapeste, era a estação final, eu a acordar devagar, o comboio a voltar para trás, eu a saltar do comboio em andamento, eu a cair para o lado certo.


(inspirado no sempre notável J. Rentes de Carvalho)